segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Além-do-humano: o super-homem



Viver em um mundo humano sob o império do niilismo não é, de modo algum, uma objeção ao pensamento – o que tem o pensamento a ver com objeções! Percebemos que é exatamente aí, nesse ambiente lúgubre, que a necessidade de exercermos a plena potência do pensamento torna-se indispensável para criarmos novos modos de construir o mundo. Dessa forma, o pensamento poderá impor-se diante da mediocridade, afastando para longe muitas noções corrompidas como, por exemplo, o “bem-estar” tão cultuado pela civilização moderna. Criar modos de “bem-viver” é muito mais interessante: viver e não apenas sobreviver... Trazer para si a tarefa de tornar-se o que se é: esta é a provocação da filosofia de Nietzsche. Ler Nietzsche e, principalmente, viver nietzscheanamente em um mundo niilista, exige boas doses de prudência e desintoxicação. No lugar do ar impuro daquilo que degenera ao nosso redor, sentimos a pureza da atmosfera do devir; no lugar do corpo rígido, surge o corpo flexível: nasce em nós uma nova sensibilidade. 2 Produzir um novo corpo e um novo pensamento: isso não se trata mais de um “humano”, mas de um além-do-humano.

Ao contrário do plebeu, que necessita desesperadamente de uma identidade para se defender, Nietzsche defendeu-se da seriedade mórbida do europeu da sua época ao experimentar intensidades onde a identidade é aniquilada. Grande riqueza de alguém que aprendeu a não levar o “eu” a sério... Saber dançar, jogar e rir, são provas de uma vida que singularizou-se por não fixar-se nas identificações sociais. A respeito disso,
Pierre Klossowski diz: “[...] querer ser outro diferente do que se é para se tornar o que se é.”4 É evidente que a emoção psicológica experimentada nesses estados de dissolução da identidade não é – ao contrário do que o plebeu pensa – uma enfermidade, mas expressa uma natureza saudável que conquistou o direito de não se identificar com formas a priori. A capacidade de mutação é uma grande saúde. Por isso que essa
natureza mutante é incapturável pelos sistemas de poder vigentes; é impossível detê-la numa classificação “racional” qualquer. O que se costuma dizer como “verdadeiro”, “eu”, “imóvel”, “ideal”, ou então, “esquizofrênico”, “normal”, “bem”, “mal”, são mentiras que o homem, já capturado, utiliza como escudos contra a vida... Eis a denúncia de Nietzsche contra uma moral que está a serviço da covardia.

Amauri Ferreira

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