quinta-feira, 26 de novembro de 2009

pra mim

Pro inferno com o amor de tardes rasas
que dorme cedo e tem hora pra chegar

pro inferno com o que é dúvida e se espalha
feito ratos em bando pela estrada

Já chega de afiar faca na noite
e de aflições que vêm de berço e não têm fim
descanso é ar no peito e uma certeza
não é mais hora de testar limite assim

Não quero mais o alívio que redime
e cuja origem é a mesma do terror
os medos que carrego já me bastam
eu sou na vida o antídoto pra dor

Pro inferno com essa festa de tristeza
não cabe mais angústia no salão
ação não é o antônimo de calma
e o que lateja, meu amor, nem sempre é bom.

Maria Rezende

pra ela

No meio dos meus peitos mora o filho que eu vou ter.
O buraco que tem lá foi feito por ele em mim muito antes de chegar.
Desse buraco eu nasci.

Quando ele aparecer pra mulher que eu me tornei
é nesse buraco antigo,
bem no meio dos meus peitos,
que ele vai se encaixar.

Esse filho que vai vir faz meus dentes mais macios e ilumina o meu olhar.

Lá no fundo do buraco,
ocupando aquele espaço,
estão minhas dádivas mais raras:
as doçuras que eu cultivo,
minhas melhores palavras,
esperança armazenada esperando ele chegar.

O dia em que ele vier ocupar minha barriga
é nesse sonho vivido que ele vai se aconchegar,
até que meus peitos inchados jorrem no seu corpo novo
todo o leite abençoado que vai nos alimentar.

Desse instante eu vou viver.

Maria Rezende