sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O eu-só



Esquece
Esvazia-te de mim
Pormenoridades intimas
Ínfimas de nós
Destroçadas em filamento uníssonos
Da volta do eu-só

O anseio de apropriar
Custa a calmaria do nós
Rebeldias do só em contento

Não te menti (tanto assim)
Não te enganei (tanto assim)
Quis verdadeiramente ser teu (tanto assim!)

A temporalidade conjunta
se esvai em dissonâncias
Junta o que te sobra
e vai embora


Única possibilidade de união:
Uma fração de paz consigo mesmo

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

mentiras


Te pedi a inexatidão
Da tua razão
Mentistes fingindo ser são
Trocastes o sim pelo não
Morrestes cavando o teu próprio buraco no chão!

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Mestre dos mestres

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa